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Algodoal... como Búzios? Abrir página em PDF Abrir para impressão Indique esta página a um amigo
Paulo Cal - Diário do Pará   
17-Jul-2009
Passei o fim de semana em Algodoal. Foram dias lindos de sol que aparecia às 5h30 da manhã e só ia embora, sob protesto, quase sete da noite. Algodoal, pra mim, é a porta de entrada do paraíso.  Por isso fica tão difícil sair de lá e encarar a cidade de Belém que me espera aqui. Desta vez, nem livro levei e o celular ficou na mala esquecido. Quase ninguém na ilha! O que eu queria mesmo era viver a vida. E vivi. À beira da praia, na casa dos amigos, nos bares da praia e da vila, no Le Cafe em especial, conversando com quase todos sobre o meu amor pelo lugar.

Nada de edifícios, nada de asfalto ou pavimentação qualquer, nada movido a gasolina ou diesel, somente gente humilde em seus caminhos de areia e grama e, até mesmo em suas casas que já são raras - um amigo notou recentemente que toda casa em Algodoal virou pousada - permanecem em sua eterna quietude e singeleza.

Paraíso, Algodoal foi até o início dos anos 2001, antes da chegada da energia elétrica firme, 24 horas. A partir daí, a vila passou por grandes mudanças. De uma modesta vila de pescadores transformou-se num festival de caras novas, de luxo e gastança - tudo encareceu e o que era bom, barato, sereno, humilde e pacato acabou ou, vai acabando aos poucos, chegando ao fim.

A energia elétrica em Algodoal pode ser comparada à chegada de Brigitte Bardot em Búzios no início dos anos 60. Lá, como cá, tudo mudou. Quem não se lembra da nudez da atriz francesa no filme de Roger Vadin - E Deus Criou a Mulher - realizado em 1965? E da sensação que causou no país todo, quando elegeu Búzios como seu refúgio favorito? Hoje Búzios apresenta, com exceção da natureza e da Rua das Pedras, um aspecto decadente, como a própria Brigitte - uma velha senil, não só pela idade, mas pela pobreza de algumas de suas idéias e alguns de seus ideais. Só em Búzios ela ficou, esculpida em bronze, para sempre jovem, bela e desafiadora, eternamente olhando o mar.

Apesar das mudanças trazidas pela energia elétrica, o que se percebe com clareza em Algodoal é que a vila/cidade, em alguns aspectos, já está sofisticada. E o alento é a disposição das pessoas em admirar a prodigiosa natureza. Céu, sol e mar, fonte de inspiração dos visitantes de ontem, como os de hoje.

Algodoal mudou. Mas nem de perto se parece com a imagem suja descrita por um delegado de polícia, superintendente do Salgado, que disse aos jornais da capital que Algodoal, segundo denúncias, era a terra do barulho, música alta, do tráfico de drogas como cocaína, maconha e ecstasy.

Sabemos que Algodoal mudou. Caras novas por lá circulam, os preços dos serviços aumentaram assustadoramente, o sossego público foi de alguma forma alterado pela cultura da música em alto volume que veio de fora, pelo descaso das autoridades do Estado e do Município que é patente e, por fim, pela ausência da polícia, que é boa e necessária, mas que só aparece por lá nos últimos 15 dias do mês de julho. Mas... penso eu, qual paraíso terrestre, esteja ele em qualquer canto do mundo, já não foi marcado e manchado, pelo menos uma vez, pela insensatez dos homens?
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